Lendo e ouvindo a música


Fofas


Desenhos de Jorge Queiroz da Silva

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Um português do barulho

Conheci um lusitano teimoso, convicto e endiabrado cujo nome de guerra era “Lomba” . E quanta coisa interessante esse gajo me passou!... Vamos dar aqui uma ordem aos fatos mais interessantes que até hoje, sobrevivem em minha memória.Chegou ao Brasil por volta de 1976, logo após a Revolução dos Cravos em Portugal ocorrida na década de 1975. Ele fazia parte do “staff” do mais famoso empresário para quem trabalhei , que veio para o Brasil se estabelecer como industrial, banqueiro e pecuarista. Mas, vamos ao Lomba. O Lomba na verdade, lá em ‘Leiria’ tinha como função, ser o responsável por todo o serviço de capatazias nos principais portos de Lisboa, Leiria ou Cidade do Porto. Pela grande responsabilidade do seu trabalho em Portugal e como todas as empresas do meu patrão haviam sido encampadas pelo governo revolucionário, deixou o pobre Lomba, assim como outros famosos executivos, sem função específica. Daí então, serem trazidos para o Brasil para ocuparem cargos correlatos no Grupo onde eu trabalhava já há quase três anos. Conto aqui o primeiro episódio: Estava eu em minha sala de trabalho, quando o Presidente do Grupo, entrou acompanhado do Sr. Lomba, dizendo-me: - aqui está uma pessoa de alto “”valore”” para o nosso grupo. Trata-se de um gajo muito entendido em coisas do porto, nos embarques e desembarques das importações e exportações. Ligue-se a ele e terás um bom conselheiro em outras “”coisitas”” mais. Então, eu muito atencioso, puxei uma cadeira para o Lomba dizendo: - senta aí para a gente conversar. Logo em seguida, arrependi-me do que disse, pois ele se sentou e foi logo disparando : as coisas aqui não devem ser muito diferentes das de lá. Vai ser muito fácil para mim, e o meu primeiro teste, vai ser desembaraçar a minha própria carga de mudança para o Brasil. Aí sim, eu ficarei senhor da situação. E continuando, me fez outras solicitações, sobre visto de passaporte, carteira de identidade, carteira profissional, cartão do imposto de renda, bairros onde poderia residir no rio, conta bancária,etc... Eu, muito à vontade , escrevi todas as informações para ele colocando-me às ordens para qualquer outro problema no futuro. Não passou tanto tempo assim , quinze dias após, vem aí o primeiro entrevero da era Lomba: Recebo um telefonema da empresa Nicolau Hayes , me perguntando se trabalhava comigo um indivíduo com o nome de Lomba. Respondi afirmativamente e me disseram espantados, do outro lado da linha, ele é louco!... Então eu disse: - não o conheço bem ainda, ele chegou a menos de quinze dias no Brasil. Tornaram a me perguntar: - esse gajo está mudando para o Brasil? Respondi que sim, e eles, deflagraram a ira profissional, dizendo indignados: - você sabe que ele está trazendo uma carga de quase duzentas caixas, e que a maioria delas contém armas, revólveres, carabinas, metralhadoras, espingardas, marfins de elefantes, peles de onças, etc, etc...? Fiquei traumatizado com aquela informação, peguei imediatamente o telefone, ligando para o Lomba e dizendo: -estamos num impasse, a nossa alfândega aqui no Brasil, não está aceitando o desembaraço da sua carga de mudança, uma vez que, a sua carga de móveis e utensílios está sobrecarregada de armamento . Ele tranqüilamente me respondeu: -eu não te contei que eu era caçador em Portugal? Então, eu respondi ao Lomba que caçar no Brasil é bem diferente do que caçar em Portugal. Ainda por cima, estamos vivendo a ditadura militar, vai ser impossível o desembaraço de sua carga. Prontamente, ele respondeu:- “”ai ééé...””? então mande jogar minhas armas ao mar! Este foi primeiro teste do Lomba como despachante alfandegário no Brasil, um verdadeiro fiasco! Mas não paramos por aí não, veio o segundo entrevero: A esposa do Presidente do Grupo iria fazer uma viagem à Lisboa e solicitou ao Lomba que queria levar com ela o automóvel Passat, último tipo, comprado no Brasil, para mostrar aos seus amigos portugueses. Lomba muito obediente,por sinal, veio até mim e disse: - tenho que despachar o Passat da esposa do nosso Presidente para Portugal, ela quer levá-lo na viagem de férias, o que tu achas ? Eu lhe disse que era impossível e ele continuava insistindo: - mas a palavra de meus patrões valem muito, eu vou despachar o carro assim mesmo. Eu fiz um alerta:-você vai ver o preço deste despacho depois... Quando recebi as notas de capatazias para pagar, fiquei indignado e disse :- sabe você, quanto custou esta brincadeira? , ela ficou em mais de oitenta por cento do valor do carro, só de taxas alfandegárias. Essas despesas ficaram a débito de sua conta pessoal. Mas ainda não paramos por aí, vamos continuar com as histórias do Lomba... Após a volta da esposa do Presidente, que residia em uma das fazendas do Grupo, na Fazenda Três Rios, no Município de Unaí, ela necessitou de um novo trabalho, e pediu ao bravo Lomba, que fizesse o transporte de uma máquina de lavar roupas para a Fazenda,em caráter de urgência. Prontamente o referido serviçal a atendeu, amarrando a máquina de lavar ao teto daquele mesmo Passat, (o tal carro que foi passear em Portugal) e saiu viajando pelas estradas de barro, em direção à Fazenda, esquecendo de um pequeno detalhe importante: aquele tipo de estrada é por demais acidentado e isto causou ao teto do carro um afundamento natural a cada balanço, no percurso da viagem. Em dado momento ele começou a sentir um peso em sua cabeça, olhou para cima e viu que tratava-se do teto do carro. Na realidade, ele conseguiu obedecer a ordem da patroa, mas em compensação , o carro no seguro, após a consulta de sinistro que fiz a corretora, pelo laudo de verificação, foi enquadrado como “perda total” . Vamos seguindo com as histórias do Lomba, e vamos recordar que ele já estava no Brasil há pouco mais de um ano, quando perguntou-me: - que praia no Rio de Janeiro dá maior tranqüilidade para a família? Eu respondi: - “Grumari. Perguntou-me como se chegava até lá e eu informei: - pela orla marítima, passando pelo Recreio em direção a Guaratiba. Por curiosidade, lhe perguntei qual era o seu carro e ele me disse ser um Galaxie 1968. Chamei sua atenção para o custo de combustível daquele carro, que era muito alto, fazendo apenas três quilômetros com um litro de gasolina, mas ele respondeu que preferia aquele carro para levar toda a família de uma única vez e que com o dinheiro que economizasse da prestação na compra de um carro zero, abasteceria o Galaxie tranqüilamente, durante o mês inteiro. Dias depois, eu fiquei sabendo que ele foi a Grumari com a família, no possante “Galaxie 68 “, só que retornou para casa rebocado. Esta não foi a última história da era Lomba, mas seria uma série muito maior, se eu estivesse ainda junto dele até os dias de hoje. Mas para finalizar, vou contar a que acho mais hilariante. Num determinado dia me encontrava no gabinete do Presidente atendendo a um chamado e de repente entrou pela porta, esbaforido e totalmente nervoso, o famoso Lomba. O gajo muito aflito, iniciou na sala do patrão uma caminhada, frente à frente, a mesa do Presidente. Ia para lá e voltava para cá, repetindo muitas vezes este trajeto. O patrão já irritado com aquela estranha movimentação, levantou a cabeça e dirigiu os olhos ao Lomba, dizendo em bom tom: - oh ! Gajo! Senta aí! Tu assim , estás me colocando nervoso! Aí então para minha surpresa, verifiquei que ele havia ingressado na sala, portando um cigarro aceso, e como era pessoa que respeitava demais o patrão, ficou andando de lado para o outro, para que o patrão não percebesse que ele estava fumando, uma vez que o Presidente era uma vítima do cigarro, sofria de um enfisema pulmonar. Então bruscamente , ele amassou o cigarro na palma da mão e o colocou rapidamente no bolso de sua camisa. Só que ele não teve muita sorte...vestia uma camisa de seda pura e o cigarro inflamou no seu bolso começando a sair fumaça,quando o nosso grande chefe percebeu. Aí então gritou bem alto: oh! Gajo ! Estás a ardere! Eu então não suportei e fiquei rindo sem parar, pois nunca tinha visto uma piada de português ao vivo e a cores.

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